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25 de abril de 2019

Estranho no Ninho

Categorias: migração

Recentemente publiquei um post no Instagram sobre o sentimento de “estranho no ninho” que muitas pessoas já devem ter vivenciados de uma forma ou outra, seja em ambiente profissional ou pessoal. Essa sensação de não pertencimento e não reconhecimento geralmente vem acompanhado também de uma angústia inicial de não encontrar uma referência externa para se apoiar em e da dificuldade em identificar uma possibilidade de criação de um vínculo de pertencimento. No caso dos migrantes ou de quem está morando fora temporariamente, isso pode muitas vezes ser vivenciado de forma mais intensa e é disso que falaremos hoje.

Há um discurso atual sobre a globalização e uma nova identidade de “cidadão do mundo” que devemos nos atentar. Obviamente, a modernização e a globalização trouxeram e trazem muitas oportunidades em um mundo capitalista, de expansão de horizontes e acessibilidade a inovações e tecnologias (até certo ponto). Alguns séculos atrás, o homem vivia e sobrevivia apenas com os recursos dentro dos limites de um dado território ao qual ele tinha conhecimento e acesso, principalmente no que tange a agricultura, por exemplo. Hoje, há uma indústria estruturada em escala global de trocas e vendas de commodities entre países dos quatro cantos do mundo. O alho vem da China, a carne vem de nossos vizinhos sul americanos e por assim vai.

Com isso, cria-se uma ilusão de que as barreiras geográficas são transponíveis, e até um pouco “nebulosas”. As empresas multinacionais gostam de termos como “talentos globais”, gerando uma ilusão de igualdade entre as pessoas. Afinal, o que significa ser um “talento global” ou mesmo um “cidadão do mundo”? Será essa uma das características e traços mais valiosos para o mundo corporativo do século 21? A adaptabilidade do ser humano?

Com certeza, um indivíduo que se adapta melhor aos ambientes é aquele que tem mais chances de sobrevivência – a teoria Darwiniana pode ilustrar melhor do que ninguém esse aspecto da evolução. No entanto, há um ponto de inflexão, como em todas as situações, em que o excesso deixa de ser vantajoso – e o mesmo ocorre com a adaptabilidade.

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Para os aventureiros do mundo, uma pitada de flexibilidade evita muitos sofrimentos e conflitos culturais e emocionais; e adicionando uma dose de empatia e resiliência, a receita para desenvolver uma inteligência emocional está pronta. E, como toda a receita, o segredo está nas medidas dos ingredientes.

No caso dos migrantes, o que se percebe muitas vezes é a percepção da existência de uma “pré-condição” não verbalizada para a permanência no novo território: deve-se deixar os traços de individualidade e alteridade do lado de fora. A estrangeiridade, e tudo aquilo que representa o “diferente” da norma, deve ser de alguma forma neutralizada. A hospitalidade vem com o preço da adaptabilidade: se eu reconheço o outro como igual e portanto não ameaçador, aceito a sua presença e ofereço a minha hospitalidade. Porém, tudo pode mudar com qualquer sinal de ameaça transformando-se em hostilidade, como uma reação de proteção. Basta ver os indícios de intolerâncias nas redes sociais diariamente.

O mito de Procusto ilustra bem a crueldade diante da alteridade. Segundo a mitologia grega, Procusto era um homem muito grande, quase um gigante; seu nome significa – O Esticador. Esse gigante morava nos altos da Serra de Elêusis onde possuía uma espécie de hospedaria que abrigava os viajantes que por ali passavam a caminho de Atenas. Devido às suas habilidades de ferreiro, Procusto construíra uma cama de ferro na medida exata de seu tamanho para acomodar seus hóspedes vindos de terras distantes. Ao deitar-se em tal cama, caso o viajante não se adequasse perfeitamente às suas proporções, ou seja, se as extremidades de seu corpo fossem maiores que a cama, Procusto rapidamente cortava o que excedia. Se o viajante fosse menor que a cama, com o auxílio de instrumentos e roldanas, Procusto esticava-o até que preenchesse completamente o que faltava. Assim davam-se os dias de Procusto que munido de intensa crueldade eliminava qualquer alteridade existente entre ele e o outro.

Então, qual a solução para evitar cair na armadilha de Procusto? Possibilitar uma travessia entre a cultura de origem e a nova cultura, criando uma passagem de um lado a outro, sem que isso signifique necessariamente a eliminação total de uma cultura, para se sujeitar a outra. Voltando à idéia inicial do sentimento de “estranho no ninho” – vemos o quanto é necessário e saudável poder acolher essa “estranheza” de si mesmo, e sustentar as diferenças de uma forma saudável, elaborando aquilo que é possível continuar carregando dentro de si na reconstrução de uma identidade em um outro país.

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