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19 de março de 2019

Migração e despedidas: 7 lutos presentes

Categorias: migração

Você sabia que durante o processo migratório, um indivíduo experienciará, em graus diferentes, os sentimentos vivenciados num processo de luto? De acordo com os estudos de Della Pasqua e Dal Molin (2009), existem 7 tipos de luto no processo da migração: luto da família e amigos, da língua, da terra, da cultura, do status social, do grupo de pertencimento, e dos riscos para integridade física.

Mudar de país (e às vezes até cidades) consiste em várias rupturas e perdas do status quo vivenciados até então. E, isso exige um processo de enlutamento – lembrando que o luto é uma reação à perda de um ente querido ou representação do mesmo, como o país, a cidade, liberdade, identidade e assim por diante.

Vamos ver em mais detalhes alguns desses lutos. oliver-cole-50746-unsplash

 

– luto da família e amigos: ainda que o avanço da tecnologia ajude a manter uma conexão com aqueles que foram deixados no país de origem, há um sentimento de falta, de ausência de um pertencimento, de um grupo – não somente das pessoas, mas do coletivo que ela representa e planos futuros. A falta se manifestará em eventos sociais, em marcos de nascimentos e falecimentos, casamentos e outras celebrações e marcos. Momentos estes em que as relações se mostram presentes como uma forma de suporte grupal às ansiedades e angústias individuais.

língua: um outro vínculo que se modifica é a língua materna. Ao migrar para um novo país, isso também significa aprender uma nova língua e suas representações simbólicas. Ainda que você vá morar em outro país de língua portuguesa como Portugal ou Cabo Verde, você estará exposto a outras entonações, gírias que representam história, valores e culturas de um outro que não o Brasil. Com isso, faz-se necessário um esforço em direção à criação de novos vínculos com as pessoas locais, que poderão servir de “tradutores culturais” em um primeiro momento.

terra: o território representa não só uma localização geográfica, mas possibilita um sentimento de pertencimento a um lugar. Com isso, há também uma sensação maior de segurança com o seu entorno, pois você conhece a terra e sabe navegar. É comum o estranhamento de novas ruas, avenidas, comércio e até novos pontos de referências. Isso acontece naturalmente quando você muda de bairro, imagine então quando muda de país.

–  cultura: sabemos mais sobre a nossa cultura, quando nos defrontamos com a cultura do outro que é diferente. Ao migrar para um novo país, você também se depara com vários códigos culturais novos, desde relacionamentos interpessoais, relações com o tempo, percepção de hierarquias e valores sociais. O “jeitinho brasileiro” precisa dar (um pouco de) espaço para a nova cultura também.

status social: em sua grande maioria, os migrantes que escolhem ir para outro país, o fazem em busca de novas oportunidades e qualidade de vida. Para isso, ingressam no mercado de trabalho ou de estudos em níveis abaixo do que tinham no Brasil. Considerados às vezes como “os sacrifícios” necessários para um retorno a médio/longo prazo. Com isso, há uma perda de um status social atrelado à identidade de um indivíduo, do papel que representava nos grupos que pertencia.

pertencimento: conforme apresentado anteriormente, ao longo do processo da migraçao, tambem há momentos de um sensação de não pertencimento, de ausência e afastamento. A dor de não poder acompanhar e fazer parte de uma série de eventos são consequencias das perdas sentidas.

– riscos para integridade física: sem conhecimento apropriado de códigos culturais, sem o suporte de redes de apoio, e sem conhecimento prévio de acesso a cuidados da saúde, há uma situação de vulnerabilidade para aqueles que migram. Todos os recursos externos que antes existiam, hoje precisam ser novamente construídos.

Nenhum processo de migração é fácil. Mas, escolher acreditar apenas em soluções mágicas, e histórias de sucesso não garante uma vivência sem perdas e lutos. Cada migração é única e particular. Conhecer a si mesmo, compreender e se conscientizar sobre os próprios recursos emocionais para lidar com as perdas naturais como citados neste artigo será um dos melhores alicerces para possibilidade de vida nova em um outro país.

Todos os lutos citados acontecem como parte do processo migratório. O importante e achar um equilíbrio entre as perdas e os ganhos na nova cultura. Isso não significa substituição de um pelo outro. Significa apenas ressignificar as perdas e aceitar que algo novo está sendo criado, seja ele um novo senso de pertencimento, de status ou até de relações.

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